Usar o mesmo talher para servir e comer azeda os alimentos?

Será que se servir e comer com o mesmo talher pode, realmente, azedar os alimentos? Descubra porque isso acontece

Todo mundo já deve ter ouvido, pelo menos uma vez na vida, que usar a mesma colher para comer e servir azeda os alimentos. Afinal, essa frase é tradição em muitas famílias. Mas, será que isso é mesmo verdade ou é um mito passado de geração para geração?

Segundo o biólogo Erich Fernando Espinelo, essa afirmação é sim verdadeira. Ele diz que essa ação tem resultados bastante degradantes para os alimentos, principalmente naqueles que ficam em temperatura ambiente, ou seja, que não são refrigerados.

Por que servir e comer com o mesmo talher azeda a comida?

Erich explica que dois fatores muito importantes presentes em nossa boca são os grandes responsáveis para que isso ocorra: uma enzima chamada de ptialina e também micro-organismos, como algumas bactérias. Ambos ajudam a degradar os alimentos.

“Na nossa boca, temos glândulas salivares que produzem a saliva, na qual encontra-se uma enzima chamada de ptialina, também conhecida como amilase salivar. Esta enzima é responsável pela degradação do amido no alimento, ou seja, é o primeiro passo da digestão, onde o alimento começa a ser digerido, quebrado e amolecido, para que possa descer mais facilmente pelo esôfago e chegar ao estômago, onde será iniciado outro processo químico de transformação do alimento”, esclarece o biólogo.

Mulher provando comida

Esse hábito causa a degradação do alimento, azedando-o em poucos horas (Foto: depositphotos)

Já em relação aos micro-organismos, o profissional diz que eles estão presentes em todo lugar, sejam eles benéficos ou não. Claro que isso não seria diferente também em nossa boca. Portanto, quando usamos a mesma colher para comer e servir ao mesmo tempo, estamos não só levando a enzima ptialina para a comida, que começará a degradar; como também milhares de microrganismos, incluindo bactérias, que da mesma forma vão degradar os alimentos.

“Esse processo de degradação desencadeia muitas reações químicas e produz muitos metabólitos, e isso altera totalmente a estrutura, a cor, o sabor e os nutrientes deste alimento. Ou seja, ele ‘azeda’ e não pode ser mais ingerido. Lembrando que isso leva cerca de poucas horas ou até minutos, dependendo da quantidade de saliva e microrganismos que foram inoculados neste alimento”, complementa Erich.

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Beber diretamente na garrafa causa o mesmo efeito

Atenção, o mesmo vale para quem bebe diretamente na garrafa!  De acordo com Erich, o ato de beber no gargalo tem dois agravantes: o primeiro é levar a enzima da saliva e os microrganismos, como já explicado anteriormente; e o segundo é, justamente, o compartilhamento da mesma garrafa com outras pessoas.

“Além de degradar esse líquido, tudo o que estiver ali dentro, ou seja, muitos microrganismos e enzimas serão transmitidas para outras pessoas, inclusive doenças, como herpes, gripes, micoses, infecções bacterianas, entre outras”, alerta o biólogo.

A única ressalva é se a garrafa não for compartilhada ou se o líquido for ingerido naquela mesma hora rapidamente, dessa forma, não terá nenhum tipo de problema. “A questão está no tempo de uso da garrafa e seu armazenamento para ingestão futura, pois o tempo de espera pode propiciar a proliferação de bactérias e isso pode ser até fatal quando for consumido”, informa Erich.

Por isso, a melhor forma de tomar alguma bebida é no copo. Afinal, é até desrespeitoso ter uma atitude como essa quando você mora com outras pessoas. Sem contar o fato de que, na maioria dos casos, as pessoas podem não ter conhecimento desse hábito do outro e podem estar sendo prejudicadas sem saber.

Outros malefícios dessa ação

Como vimos anteriormente, o principal problema do hábito de usar a mesma colher para comer e servir os alimentos e também de beber diretamente na garrafa é que a comida e a bebida irão estragar de forma mais rápida. Além do fato da saliva e os microrganismos poderem ser transportados e transmitidos para outras pessoas, levando e compartilhando muitas doenças virais, bacterianas e fúngicas.

Porém, esta ação pode ainda causar mais malefícios. Muitos problemas intestinais e diarréias, por exemplo, podem ocorrer depois de consumir um alimento ‘azedo’. “Lembrando, que muitas vezes o alimento não apresenta cheiro, cor e textura diferentes do normal após ter ‘azedado’, mas podem já conter uma proliferação muito grande de microrganismos e isso pode levar a sérios danos a nossa saúde”, ressalta Erich.

Dicas para evitar que os alimentos estraguem antes do tempo

Além de não utilizar a mesma colher para comer e servir, Erich orienta que é muito importante sempre conservar os alimentos sob refrigeração. Ao terminar a refeição, o alimento restante deverá, imediatamente, ser colocado na geladeira ou ser congelado. Isso evitará que muitos micro-organismos se proliferem rapidamente, além de evitar que ‘azede’ mais rápido.

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Entretanto, o biólogo recomenda também evitar o armazenamento do alimento por muito tempo na geladeira para consumo. “Apesar da refrigeração, esse alimento já está em processo de degradação, no entanto, num estágio bem mais lento do que em temperatura ambiente; mas ainda assim pode conter micro-organismos nocivos a nossa saúde. Por isso, é recomendado consumir o quanto antes; dependendo do alimento, em até 24 horas ou menos”.

Caso o alimento seja congelado, Erich diz que esse tempo pode subir um pouco mais, em torno de dois a sete dias, também dependendo do tipo do alimento. “Claro que estamos falando apenas da conservação do alimento, pois alguns nutrientes neste processo podem ser perdidos ou inutilizados completamente. Portanto, o mais recomendado é consumir o alimento por completo em cada refeição”, explica o profissional.

*Informações sobre o especialista entrevistado

Erich Fernando Espinelo
Biólogo
Formado em Ciências Biológicas pela UFRN

Especialista em Microbiologia e Parasitologia
Professor de Ciências
Faz parte da equipe do site Diário de Biologia 

Sobre o autor

Jornalista (MTB-RJ: 36167), formada em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo, pela PUC-Rio e especialização em Jornalismo Cultural, pela UERJ. Como redatora web, escreve matérias sobre assuntos diversos. Também atua na área de marketing de conteúdo e produção audiovisual.